Nos dias maus, mantém-nos vivos.
Manterá?
"Um dia, descerrando as pálpebras, e chorando, pensei: 'vivo'. Então começou a angústia, este sopro de animal estranho."
"No início do século XXI, o mundo encontra-se infectado pelos vírus da padronização, da normalidade acrítica e da resignação. O paradigma neo-liberal, nascido na década de oitenta do século passado, levou ao seu esplendor o acrónimo T.I.N.A. (There Is No Alternative), espécie de slogan panfletário que resume, de uma forma mordaz, os ideais do consenso de Washington. Esta ordem das coisas, que de natural pouco tem, trouxe consigo as democracias decadentes (bem longe dos ideias gregos ou mesmo das teses contratualistas de Rosseau), políticos incompetentes, socialismos bacocos e…um grande vazio. Nas relações pessoais, o ideal é o da normalidade; o padrão torna-se norma de conduta e qualquer desvio é olhado de soslaio, com desconfiança. O hiper-consumismo faz esquecer os valores crus, as emoções à flor da pele. O amor é, agora, palavra para novelas, e o ódio serve para ilustrar os faits-divers jornalísticos. Nada é vivido com a intensidade das emoções. A sintaxe toma o valor da semântica e as palavras valem pela sua aparência. No entanto, um grupo de pessoas resiste a este estado de coisas: vivem a vida pela vida, com a intensidade de um poeta maldito, ou de um actor suicidário a diletância de um saltimbanco ou a espontaneidade de um marinheiro bêbedo. É uma geração de gentes, mas não separadas pela idade. O que os junta são as emoções, a forma como as vivem e delas sugam a vida: o amor pelo amor, a paixão pelo ódio, a volúpia do suor e a sensualidade do sangue. Tal como os caninos, esta geração vive em matilha e cada cão é a liberdade. É esta a Geração da Matilha..."
Como estamos habituados às pequenas mudanças da natureza, o choque súbito de um ataque cardíaco que interrompe a vida é ainda algo de incompreensível.
Mas também é incompreensível a luz que surge do nada no meio de um compartimento devido ao gesto banal de carregar no interruptor. Estamos diante de um milagre e nascemos já dentro de milhares de outros milagres como este.
Comovo-me, por exemplo, ao ver uma velha senhora a ligar e a desligar o interruptor.
Assistir, primeiro, à força do velho braço que se levanta, que se afasta da posição de descanso; ver depois a velha mão mandar nessa minúscula peça que, estando para cima ou para baixo, impõe um espaço que se esconde ou se torna visível. Uma velha mão faz um gesto novo.
De qualquer maneira, sempre pensámos que o espaço não vê - não é coisa com olhos - e que existia apenas para ser visto, ou não, por nós. Por isso transferimos a sensação e, assim, o interruptor da electricidade, se não existir outra fonte de luz, passa a determinar a cegueira parcial e momentânea dos seres humanos. Ligo a luz: vejo. Desligo a luz: estou cego.
Este acto de ligar e desligar a electricidade introduz uma nova lengalenga: vejo, não vejo; vejo, não vejo.
Vejo, não vejo - eis um resumo do que é estar vivo: às vezes vemos e entendemos o que nos acontece, outras vezes não.
Cansaço: s.m. - Fadiga; fraqueza.
Das apostas feitas na vida e da sensação de as ter perdido quase sempre todas.
Das batalhas travadas sem saber ao certo se me levaram a lado algum.
Da sensação de derrota que guardo delas.
E agora?
Valerá também a pena toda esta batalha?
"Construo o pensamento aos pedaços:
cada ideia que ponho em cima da mesa, é uma parte do que penso;
e ao ver como cada fragmento se torna um todo,
volto a parti-lo para evitar conclusões."
Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'

E esta vontade esvaeceu-se, assim, sem dar explicação, sem motivo aparente.
E é como que se um vazio existisse agora em mim, deixado por todas as palavras que gostaria de soltar para o papel, letra a letra.
Mas não, não há nada. Essas palavras abandonaram-me, fugiram de mim.
Talvez tenha sido o receio de se poderem vir a tornar 'pesadas'.
Imagino que uma palavra não goste de se sentir pesada, não goste de demonstrar o que por vezes apenas um olhar pode desvendar.
E talvez com esse medo, fugiram de mim. E agora aqui estou eu, vazio.
Nem palavras, nem inspiração, nem um olhar que transpareça este espaço inabitado em mim, no qual me encontro agora.
Há espaços vazios em mim onde me perco, onde não existo.
Haja coragem para me descobrir.
Haja esperança no que encontrar.
Foto daqui.
"E na volta, Deus, vens de lá de cima fazer isto?
Com que direito?
Porquê?
Explica-Te, mereço, no mínimo, uma justificação.
Há coisas que doem, no caso de andares distraído...
Não consigo entender as Tuas profundezas, e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos."
António Lobo Antunes

Vivemos, amamos.
E o passar do tempo vai-nos gastando, envelhecendo-nos à medida que vamos lutando por aquilo que sonhamos. Mas tudo isto nos enriquece.
Planeamos uns passos, a vida obriga-nos a dar outros. Momentos lúcidos em que se tem noção que nesta vida é necessário lutar afincadamente pelos sonhos.
Por vezes desgastados por acidentes de percurso que nos são 'oferecidos', quiçá, como teste à extrema capacidade humana de lutar, de viver, sobreviver perante a mais difícil das circunstâncias.
Uma vida cheia de sonhos, planos traçados, futuro risonho.
Não é este o ideal perfeito?
Alturas há em que por circunstâncias que nos são alheias, existe um esforço extra a fazer para poder continuar a lutar por todos os sonhos. Nunca esse esforço fez antes parte dos planos, nem nunca o consequente desgaste 'entrou nas contas' das lutas a travar.
Há dias, em que arduamente continuo essa luta, quando todo o meu corpo reclama sossego.
É nesses dias que questiono:
Afinal, até que ponto consegue o ser humano aguentar?