Tuesday, August 26, 2008

Mirror

(Salvador Dalí, Metamorfose de Narciso)

"Realmente o amor pode libertar o ser introvertido dos abismos da introversão. É o caso dos poetas amorosos: os únicos que na nossa poesia podem ser subjectivos ou introvertidos sem grande dano para si próprios. O homem, para amar, precisa de sair de si mesmo. Narciso ama-se a si próprio, vive enamorado da sua própria imagem. É de si e para si que vive. "A tristeza de nunca sermos dois". Essa é a tristeza de Narciso, a tristeza de todo o homem que não pode sair de si mesmo para aceitar a realidade alheia. O homem ama porque se sente só. Na sua solitária insuficiência espera encontrar fora de si o que nela lhe falta. Há pois, no amor, um sentimento de insuficiência. Esse sentimento existia nele, mas tão forte, tão permanente e tão irremediável que só noutro mundo esperava completar-se. A sua insuficiência afectava-lhe o lado mais importante da personalidade. Ele sentia-se ilimitado: olhava-se a um espelho e não se via. O mundo atravessava-o de lado a lado. Como aspirar então o amor? Como oferecer-se aos outros? Os outros querem realidades. Ele era um fantasma. Como esperar firmeza, lealdade, confiança da parte de um fantasma?"

(adaptado - João Gaspar Simões in 'Poesia de Mário de Sá-Carneiro')

[Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, a 19 de Maio de 1890. Suícidou-se em Paris, a 26 de Abril de 1916. Sobre ele escreveu Fernando Pessoa:
Mário de Sá-Carneiro não tem biografia, só génio]

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