Saturday, March 22, 2008

Mors et Vita

Naquela noite chuvosa, a voz por detrás do telefone parecia trémula.
-Estás bem? - perguntava.
Sabendo eu que aquela pergunta queria revelar algo que a alma não conseguia guardar.
A conversa não passou dali.
A manhã seguinte chegou, com um acordar que prometia um dia solarengo.
Uma inesperada visita despertou-me.
Ofereceu-me um bom dia com um sorriso - não genuíno, é certo - mas no entanto era ainda um sorriso. Ainda agora o recordo, tal era a tristeza que carregava.
A conversa trivial que se instalou soava-me a "cerimónia". No fundo ambos sabíamos o motivo daquele encontro - pelo menos eu desconfiava.
A voz tornou-se ainda mais trémula e a insegurança notava-se no mais pequeno poro, como quem transpira depois de um enorme esforço (fisíco ou psicológico).
Um silêncio ensurdecedor e pesado instalou-se.
Ele ganhava a coragem para soltar o que o trouxera ali.
Eu permanecia na ângústia da espera, querendo ouvir a justificação.
-Chegou a hora. Partiu. - e o silêncio quebrou-se.
As lágrimas correram-me.
Ele permanecia apático no seu olhar, querendo no entanto demonstrar toda a segurança do mundo.
Eu via nele o homem que tentava suportar todo o peso do mundo ao conter aquelas lágrimas que tanto gritavam para sair.
O dia que prometia ser solarengo, rápido se tornou chuvoso. Em todos os sentidos.
Talvez fossem os anjos a soltar as lágrimas que se tentavam conter para não transparecer a dor.
Para mim não foi o fim. Foi um até já, como quem nos espera na próxima esquina sempre a olhar por nós.
Sei agora que nos dias solarengos que virão, parte do brilho virá também do verde dos teus olhos. Nesses dias, em todos os outros dias, resta-me dizer:
Até já.


["A morte é continuação. Uma partida que tem reencontro" - (CSMF)]

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